
Reversão que retifica
o mundo
João Vieira
O Fórum
Espiritual Mundial (Iº FEM) a que assistimos neste
findar de ano da graça de 2006, Era Cristã,
em Brasília, apontou caminhos que podem levar à
reversão de expectativas a respeito do futuro do
mundo, ora antevisto temerário e desastrado! A sua
realização se deveu à União
Planetária, Iniciativa das Religiões Unidas
(URI) e Universidade Holística da Paz, com apoio
(pelo menos formal) do Governo do Distrito Federal e colaboração
efetiva de quase uma centena de entidades.
Conferências
verdadeiramente monumentais, considerações
essenciais e intervenções breves, mas procedentes
sobre coisas que contam para quaisquer assembléias,
publico ou clientela. Algumas conferências simples,
porém surpreendentes, como as dos orientais que parecem
se impor mais por suas vestes paramentosas, gestual ou mesmo
o silencio, do que propriamente a fala. E quando falam dizem!
Discursos despojados de pretensão e impostação,
mas que toca o ponto que conta; ou registros que podem decidir...
Assim
o fora, por exemplo, com a indiana Sudesh Didi da Brahma
Kumaris, com o tema “A divindade no ser humano”.
Vestida, ela e sua tradutora, a caráter, constante
de túnica branca de acabamento simples e sem adornos
adicionais. Pois bem: a conferencista de voz fraca, que
exigiu inicialmente a concessão do silêncio
por parte da assistência, para que fosse ouvida, e
entendida, veio a surpreender (surpreender-me) pela clareza
e profundidade de seu pensamento, exposto de forma articulada
e suave. Direta.
Disse
ela da inversão, hoje corrente, pela idéia
de que o corpo tem uma alma, quando é precisamente
o contrário, ou seja: temos uma alma que possui o
corpo!...
Parece
simples – diz ela – mas isso tem graves implicações
(botar a carroça na dianteira do cavalo), pois além
de atravancar a nossa marcha existencial, e seu evoluir,
acaba por ocasionar sucessivos desvios de rumo. Em verdade
é, sim, a alma que possui o corpo e a ela, primeiramente,
devemos reportar quanto aos desígnios de nossas vidas
– o que de uma maneira geral não ocorre, devido
à insólita e perversa inversão.
A tese
de Sudesh Didi apenas sintetizou o espírito do FEM,
já que a inversão das coisas e valores em
nossa época acabou sendo assunto recorrente de todas
as abordagens dos palestrantes, facilitadores ou ministradores
de “oficinas”, como os psicoterapeutas que se
revezavam nas promoções paralelas e/ou complementares
da secção-mãe do grande auditório
(mais de três mil lugares), do centro de convenções
principal de Brasília. Tudo isso, assinale-se, complementado
por apresentações artísticas constante
de dramaturgias, shows musicais, danças (geralmente
rituais) e da própria assistência, convocada
que era a dar-se as mãos e a cantar, bailar (ritualmente),
em manifestação de alegria e mesmo euforia
explícita.
Entrementes,
seja destacado o fato da participação, por
exemplo, de um Leonardo Boff, teólogo e profeta,
não exatamente da “catástrofe”,
mas da reversão dos métodos e técnicas,
do nosso proceder ante a Mãe-Terra-GAIA, de todo
inadequado, mas passível de reversão! Terminou
aplaudido de pé por assistência recorde do
evento.
Faça-se
ainda destaque de participações daqui mesmo
ou da Brasília Comunidade Local marcadamente ecumênica
e mística: de psicólogos profundos e/ou psicoterapeutas
como um Pierre Weil, um Roberto Crema, uma Adriana Fittipaldi
(tão jovem e já completa em sabenças
resolutivas...); de um Marco Aurélio Bilibio ou um
Ricardo Lindemann, filósofo que preside a Sociedade
Teosófica do Brasil, sediada não por acaso
em Brasília-DF. Ou ainda um William Carvalho, humanista/realista
que lá fora falar de economia, e economia maior,
aliás temerariamente maior, com sua mui hipertrofiada
“Bolha Financeira” ameaçando rebentar
e então...
A crônica não é própria
para continuar apondo destaques, entre outros do monge Beneditino
Marcelo Barros ou do professor-padre Gabriele Cipriani,
católico romano, ou ainda da Mavesper Cy Ceridwen,
da religião Wicca (pagã como o Xamanismo)
e as destacadas participações de membros do
Judiciário como do ministro Ayres Brito do STF, tão
versado nas humanidades quanto espiritualizado. E a ministra
Fátima Nancy Andrighi, do STJ, cuja cultura jurídica
extrapola a do “direito de estado” e de quebra
sabe ser também espiritualizada! E tantos fatos mais
(que ainda prossigo esquadrinhando/rememorando), como a
“oficina” sobre Espiritualidade e Erotismo,
ministrada por mais de uma facilitadora em sala fechada
da programação paralela. Afinal, tudo ali
– conferências, oficinas, apresentações
artísticas, danças rituais e/ou sagradas;
embalos mântricos marcados por instrumental inusitado;
e, sobretudo, silêncio interativado, reparador! Afinal
– dizíamos – tudo dali comportava legítimo
destaque, mas para uma outra pegada.
* João Vieira, professor universitário,
aposentado, foi diretor do Museu Rondon. E-mail: joaovieira01@pop.com.br
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