
Educação:
essência para a construção da soberania
A educação
está na essência de uma sociedade digna de
sua soberania. Essa é a opinião do senador
Cristovam Buarque, ardoroso defensor de uma priorização
máxima para a educação, quando se trata
de políticas públicas. Ele, o reitor da Universidade
de Brasília, Timothy Mulholland, o reitor da Unipaz,
Pierre Weill e Kenneth O`Donnell, do Instituto de Vivendo
Valores, foram palestrantes do I Fórum Espiritual
Mundial no painel “Educação de Valores”,
realizado na tarde do último dia 06.
O
Senador Cristovam Buarque considera a educação
como valor no sentido de crença. Ele enumerou valores
que precisam ser resgatados para que a educação
seja colocada na correta escala de bens de uma sociedade.
Entre eles o valor humanístico, soberania das nações,
liberdade e democracia.
Buarque
diz que o valor humanístico que se tem hoje é
fruto da arrogância do homem frente à natureza.
“Esse tipo de humanismo precisa ser substituído
pelo verdadeiro humanismo, capaz de desenvolver todas as
potencialidades do ser humano. O humanismo burro precisa
ser substituído. Nele, há submissão
da natureza ao gosto do ser humano em nome do econômico,
do uso indiscriminado da tecnologia visando ao lucro momentâneo
e fácil. O uso da tecnologia precisa ser reeducado
para se acabar com a tendência antropocêntrica
exacerbada. É necessário criarmos um humanismo
mais modesto em que a natureza volte a ser mãe e
não depósito de lixo”, defende.
Com
relação à soberania das nações,
o senador lembra que o planeta é um condomínio
de países e de povos. “Comparativamente, não
podemos atear fogo em nossos móveis nem podemos deixar
a torneira aberta durante toda a noite. A questão
da soberania das nações deve ser repensada
em termos mais globais frente às questões
da interdependência planetária. Não
se deve nem aboli-la nem mantê-la como é atualmente.
Precisamos educar a soberania por meio do respeito ao direito
de outros países”, enfatizou.
Sobre
o valor Liberdade, Cristovam afirma que o que vale para
o indivíduo vale para o País. “Não
é mais possível se tolerar a liberdade plena.
Ela tem de ser medida, educada para que saiba o seu limite
a fim de não destruir nem a si nem aos outros. O
conceito de uso da liberdade também tem que ser redefinido,
reeducado. Pois agora deixa de ter um cunho político
para ganhar uma dimensão ética. A liberdade
de adesão ao Protocolo de Kyoto, por exemplo, evidencia
a necessidade de se redefinir o conceito de liberdade sob
a perspectiva da ética e não mais do político”,
disse.
No
que se refere à democracia, o Senador lembrou que
ele surgiu na época em que os habitantes de cada
cidade eram capazes de definir suas próprias prioridades.
Nenhum deles, entretanto, tinha o direito de destruir a
natureza, bem comum a todos. “Hoje, a democracia americana
autoriza guerras planetárias e se recusa a tomar
medidas para conter o avanço da proteção
ambiental. Esse individualismo, a curto prazo, ditado pelo
lucro fácil, precisa ser reeducado e não eliminado”,
ensinou.
Timothy
Mulholland endossou a importância do tema educação
expressada por Cristovam Buarque. “Se colocarmos a
educação no seu grau de importância
na sociedade, já estaremos a meio caminho do processo
civilizatório”, disse.
O reitor
disse que, atualmente, são formados técnicos
competentes e competitivos. Mas lamentou a ausência
de valores éticos necessários para garantir
um futuro para a nova e as seguintes gerações.
Ele admitiu tratar-se de tarefa difícil discutir
questões ligadas à ética na educação.
Mas considerou que esse desafio tem de ser transposto por
meio da vivência de situações cotidianas
que nos remetem a valores.
Ao
discutir a problemática de valores na educação,
Mulholland lembrou que a sociedade brasileira vem sofrendo
modificações. A partir das décadas
de 50 e 60, a unidade familiar vem sendo reduzida. “Não
mais convivem pais, avós e demais familiares. Isso
reduz a transmissão de valores caros à sociedade
brasileira como o amor, a solidariedade e a cordialidade.
Tornam-se freqüentes os desenlaces familiares para
se recomporem em outro momento. Nesse contexto, a escola
vem preenchendo um pouco esse vazio. Além do ensino
formal, a escola assume a transmissão de valores,
o que exige uma visão crítica de nossos currículos.
Entretanto, a ação educativa da família
é insubstituível, pois a escola só
pode transmitir valores republicanos, ou seja, direitos
e deveres amparados pela Constituição”,
ressaltou.
Mulholland
destacou ainda a existência de preconceitos na sociedade
brasileira. Pesquisas recentes no Brasil reproduzem o que
acontece no mundo. “Entre nós, os dois preconceitos
mais relevantes são o de gênero e o de raça.
As mulheres são prejudicadas no trabalho e no seio
familiar. E a mulher negra é duplamente atingida
e prejudicada. Esses dados têm que ser conhecidos
e discutidos na escola e na universidade. Cabe à
ação educativa mostrar aos colegas que o meu
direito é garantido quando o do outro também
o é, ou seja, o meu direito termina quando atinge
o de outra pessoa”, enfatizou.
Já
Kenneth O’Donnell abordou o tema Educação
de Valores a partir de sua experiência pessoal em
projetos desenvolvidos junto às Nações
Unidas. Admitiu, como estrangeiro, que aprendeu a apreciar
os valores do povo brasileiro como a criatividade, a espontaneidade
e o carinho.
Um
dos projetos que mencionou abarcava inúmeros países
e nele foram propostas duas perguntas: Que tipo de mundo
você quer? O que você fará pelo mundo?
Segundo O`Donnell, o resultado da pesquisa demonstrou que,
como seres humanos, nós temos muito mais em comum
do que em discordância. As respostas dadas apresentavam
notável semelhança quanto às aspirações:
governo mais justo, boa vida familiar, harmonia no trabalho.
“Surpreendentemente, as respostas apontavam para valores
humanos. Apesar de os sujeitos da pesquisa pertencerem a
segmentos diversos da sociedade – cientistas na Grécia,
escoteiros na Austrália, donas de casa nos Estados
Unidos, vendedoras na Argentina, etc. – todos apontam
como valores importantes o respeito, a capacidade de escutar,
a solidariedade, o amor e o carinho”, relatou.
O’Donnell
propõe uma questão instigante, a partir de
sua experiência: será que existe algo dentro
de nós que nos impulsiona para sermos melhores? Ele
acredita que sim. “Se criarmos na vida cotidiana,
na escola, no trabalho, nos hospitais, enfim em todos os
segmentos em que atuarmos, e tivermos a preocupação
com a vivência de valores, a vida no planeta será
muito melhor”.
Na
discussão sobre valores, Pierre Weill se propôs
a contar uma pouco de sua vivência com relação
a valores espirituais. Enfatizou a importância da
base experiencial para a fundamentação da
espiritualidade, que torna os valores espirituais ponto
de união, de ligação entre as diversas
tradições espirituais.
O
Reitor da Unipaz afirma que precisamos sair do nível
de jardim de infância das tradições
espirituais, segmentando essas tradições em
nomenclaturas diversas. Relatou o conflito religioso que
viveu em família onde existiam três credos:
catolicismo, protestantismo e judaísmo. Aos oito
anos, ele institui com amigos uma organização
eclética denominada “Associação
Católica, Protestante, Judaica e Budista”.
A experiência contraditória do conflito levou-o
a procurar ardentemente o porquê das diferenças
entre os diferentes credos. À época, ele não
estava consciente de que a sua vida se encaminharia para
esse objetivo de criar diálogo entre as diferentes
tradições.
“O
conhecimento das diferentes tradições e as
experiências comuns relatadas por santos, monges e
iluminados apontam para uma mesma direção:
a experiência concreta no tocante aos fenômenos
espirituais”, informou Weill, contando que isso o
conduziu à psicologia transpessoal. Esse novo ramo
da psicologia ocupa-se da experiência transpessoal,
que pode ser traduzida pela experiência vivenciada
da espiritualidade potencial por cada pessoa.
Weill
afirmou ainda que as diversas tradições espirituais
apresentam relatos de experiência transpessoal e a
conseqüente mudança de estado de consciência
dos envolvidos nesse tipo de vivência. “E todos
concordam nos seguintes aspectos: o caráter repentino
e lúcido da experiência e a manifestação
do divino sob a forma de uma forte luz”, finalizou.
Cirlene Dias Magalhães
Assessoria de Comunicação do I Fórum
Espiritual Mundial
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