
O amor que fecunda a terra, as águas e o universo - Terra, Água e Ecologia
Marcelo Barros *
A verdadeira espiritualidade vai além do religioso e se revela em uma atitude de amor para com todas as criaturas. O universo inteiro é um imenso altar, no qual podemos contemplar a presença de Deus. Nas religiões como o Judaísmo, o Cristianismo e o Islã, por diversas razões históricas, esta espiritualidade ecológica ainda não ganhou toda a sua potencialidade. Quando, no Brasil, há alguns anos, um bispo neo-pentecostal chutou uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, houve protestos de bispos, padres e de muitos católicos, mas quando grandes empresas agrícolas destroem imensas regiões de floresta para plantar soja, jogam agrotóxicos que poluem a terra, envenenam os rios, matam os passarinhos e os animais que tentam beber daquela água, ameaçando até a sobrevivência de grupos indígenas, poucos sentem este crime como profanação a algo sagrado.
Mesmo cristãos que aderem aos valores ecológicos nem sempre vêem o cuidado com a terra e as águas como algo essencial da nossa relação com Deus e com a criação. A piedade católica tradicional considera todo pão como sacramental, pelo fato de que Jesus Cristo fez do pão sacramento do seu corpo. Como seria bom que este respeito reverencial tivesse sido desenvolvido em relação à água, à terra e à vida de todos os seres do universo, principalmente à vida humana.
Até aqui, a humanidade se comportou como se a terra fosse sempre e automaticamente fecunda e a água fosse um bem inesgotável. Entretanto, os cientistas advertem: o estado da Terra é tal que se não acontecerem mudanças significativas, dentro de poucas décadas, a própria vida no planeta Terra está ameaçada. Atualmente, há uma crise mundial de água. Vários povos vivem um stress hídrico e dezenas de conflitos internacionais têm a água como elemento provocador. O não acesso à posse democrática da terra, assim como o uso que se faz da água revela o caráter injusto e predatório do sistema econômico mundial e manifesta também se vivemos uma espiritualidade verdadeiramente ecumênica e ecológica.
Os povos da América Latina têm o direito de esperar dos bispos católicos e dos responsáveis pela pastoral uma mensagem clara que testemunhe o compromisso da Igreja com a Terra, a Água e a vida de todo ser vivo. A história do continente revela que a melhor forma de garantir a defesa ecológica da Terra, da Água e de todos os seres vivos, é assegurar o justo direito dos povos indígenas, das comunidades negras e de lavradores à posse democrática da terra.
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* Marcelo Barros, monge beneditino e biblista brasileiro, assessor das Comunidades Eclesiais de Base e da Pastoral da Terra, é autor de 29 livros, dos quais o mais recente é "A Vida se torna Aliança" (Orar ecumenicamente os Salmos), Ed. CEBI- Rede da Paz, 2005. Email: mosteiro@rededapaz.com.br
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